Ensino de inglês em uma perspectiva interdisciplinar

O currículo tradicional de língua inglesa é geralmente organizado a partir de estruturas ou formas linguísticas. Nessa maneira de apresentação do conteúdo, o propósito do ensino de inglês é simplesmente a apreensão de um código, ou seja, o conhecimento sobre a língua. Para tanto, o ensino inicia de formas isoladas para formas compostos e apenas depois para textos e usos, ou seja, parte-se do princípio de que é preciso primeiro aprender as formas de expressão da língua, para somente depois, utilizá-la  (SCHLATTER e GARCEZ, 2012).

Em uma proposta interdisciplinar, a apresentação da gramática e do vocabulário depende das demandas durante a leitura e produção dos textos. Schlatter e Garcez (2012, p. 68) explicam que as “formas e estruturas linguísticas são vistas como recursos expressivos para fazer isso ou aquilo”. Os autores salientam que a partir da demanda linguística que surge, recursos linguísticos relevantes são apresentados aos estudantes. Desse modo, o estudo dos itens linguísticos não ocorre apenas porque eles são constituintes da língua, mas sim porque são recursos necessários para que os estudantes executem as tarefas propostas a partir dos temas estudados. 

Nessa perspectiva, o currículo pode ser organizado por meio de temas relevantes para a comunidade escolar e que possibilitam a  ampliação da participação dos estudantes  no mundo. As temáticas variadas viabilizam o trabalho de diferentes componentes curriculares a fim de que o tema proposto seja estudado em sua complexidade. Os temas de estudo devem ser selecionados  levando em consideração a etapa de escolarização dos estudantes e em diálogo com as disciplinas que farão parte da proposta. É imprescindível, portanto, para este trabalho a definição de:

a. temáticas e campos de atuação humana selecionados como relevantes para a comunidade escolar.

b. gêneros do discurso que os alunos precisam se engajar para participar dos campos de atuação.

c. recursos linguísticos disponíveis para a construção dos textos (estruturas gramaticais, vocabulário, pronúncia)  e outros recursos expressivos que compõem os textos (sinais de paragrafação e pontuação, imagens, gestos, etc.).

O aprendizado de conteúdos também por meio da língua inglesa na escola pode contribuir muito para a formação dos estudantes, uma vez que eles passam a ter acesso a informações e bens culturais que eles não teriam em sua língua de nascimento. Dessa forma, o contato e a compreensão de textos orais e escritos em inglês podem, de acordo com Schlatter e Garcez (2012, p. 101), “fazer a diferença para uma cidadania crítica, criativa e atuante”.

Para tanto, os estudantes devem ter acesso a “textos que acontecem em inglês e que são usados por interlocutores que usam essa língua nesses espaços” (SCHLATTER e GARCEZ, 2012, p.103)  e isso inclui os estudantes que passam a poder participar desse processo de aprender e buscar informações também por meio do inglês. 

O trabalho com gêneros do discurso, na concepção adotada por Schlatter e Garcez (2012, p.87),  tem como objetivo oportunizar  ao estudante práticas com o texto na posição de interlocutores e de autores, ou seja, a intenção é que os estudantes aprendam as expectativas “relacionadas aos textos usados em diferentes campos de atividade humana, posicionando-se em relação aos sentidos e ao texto em si e participando por meio deles nas esferas que já conhece ou das quais poderá vir a participar”.

De acordo com Dolz et al. (2004), os gêneros podem ser agrupados em função de um certo número de regularidades linguísticas e de transferências possíveis.  Os autores explicam que esses agrupamentos respondem a três critérios essenciais:

1. Correspondem às grandes finalidades sociais atribuídas ao ensino, cobrindo os domínios essenciais de comunicação escrita e oral em nossa sociedade;

2. retomem, de maneira flexível, certas distinções tipológicas, da maneira como já funcionam em vários manuais, planejamento e currículos;

3. sejam relativamente homogêneos quanto às capacidades de linguagem implicadas no domínio dos gêneros agrupados. (DOLZ et al., 2004, p. 101).

O trabalho com os gêneros do discurso está a serviço, nessa perspectiva, da investigação que será  conduzida ao longo do projeto. Dessa forma, os textos que os estudantes se deparam, durante esse percurso, “fazem parte de diferentes práticas sociais relevantes” (SCHLATTER e GARCEZ, 2012, p. 88).

Por fim, o trabalho interdisciplinar é uma proposta cujo objetivo é a interação de saberes oriundos de diferentes áreas e componentes curriculares para o entendimento  de uma situação específica e/ou a construção de novos conhecimentos. A finalidade do processo educativo é, desse modo, a aplicação do que se estuda às situações que vivenciamos. Para isso, o diálogo entre as disciplinas a fim de  incitar o máximo de relações possíveis para que o estudante possa compreender o objeto estudado em sua complexidade se faz imprescindível. 

Antonieta Megale

Formada em comunicação social e pedagogia. Mestre em linguística aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutora em linguística aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizou estágio doutoral na Universidade de Viadrina (Alemanha). Coordena o curso de pós-graduação em Educação Bilíngue e a extensão do Instituto Singularidades, onde atua também como professora no curso de pedagogia. É docente do curso de Extensão Bilinguismo: Revisão de Teorias e Análise de Dados da COGEAE – PUC/SP. É membro do grupo de estudos de Educação Bi/multilíngue (GEEB) da PUC/SP. Atua também como docente em diversos cursos de pós-graduação e extensão por todo o Brasil e como assessora na área de linguagens em instituições de educação básica.

1 Comment
  • Maria Aparecida Neris Amorim
    Posted at 11:53h, 26 setembro Responder

    Maravilha

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