Propostas para Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Bilíngue

O mês de junho trouxe, para nós que trabalhamos com Educação Bi/multilíngue, uma novidade, já outrora anunciada, uma Proposta para Diretrizes Curriculares Nacionais. Como a maioria das propostas dessa natureza, o documento foi aberto para Consulta Pública que tem, pelo menos por princípio, o objetivo de propiciar que educadores, pesquisadores, estudantes, e sociedade em geral conheçam e contribuam com as propostas formuladas pelos órgãos responsáveis.

O Grupo de Estudos em Educação Bi/Multilíngue (GEEB), do qual faço parte, se reuniu para discutir as propostas das diretrizes e responder à Consulta Pública aberta. Esse grupo atua desde 2008 e é composto por pesquisadores, professores e estudantes envolvidos com a temática. O GEEB faz parte do grupo de pesquisa LACE (Linguagem em Atividades no Contexto Escolar) filiado à Capes pela PUC-SP e é liderado pelas professoras Dra. Fernanda Liberali e Dra. Maria Cecília Magalhães. Dada a complexidade das propostas, ao nosso grupo se juntaram pesquisadores e educadores de outras Instituições de Ensino Superior – Universidade de Brasília (UNB), Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), Universidade Federal de Santa Maria, Instituto Singularidades, Instituto Federal do Espírito Santo e Universidade Presbiteriana Mackenzie. 

Esse grupo, em sucessivas reuniões, no curtíssimo prazo concedido à consulta pública, escreveu uma resposta ao edital aberto. Foram cerca de trinta pesquisadores que, crítica e colaborativamente, se propuseram a negociar saberes e experiências e ir além de quem são e do que podem individualmente para a co-criação de bases comuns com o objetivo de sonhar uma educação bi/multilíngue mais equânime. O conceito de colaboração, que é uma das marcas centrais do grupo de pesquisa LACE, está apoiado nas discussões de Vygotsky “de que nos tornamos seres humanos nas relações com outros, por meio da linguagem que organiza relações dialógicas e dialéticas em que afetamos o mundo e somos afetados por ele. Colaborar de forma crítica não é uma ação unidirecionada; é voltada a tirar os participantes das interações, das zonas de conforto, à criação do novo” (MAGALHÃES; LIBERALI, 2017, p. 160-161). 

Colaborativamente, elegemos, em nosso grupo, quatro áreas centrais de problematização: (i) concepções de língua(gem), bilinguismo e educação bi/multilíngue; (ii) contextos da educação bi/multilíngue no Brasil; (iii) avaliação em educação bi/multilíngue e (iv) formação de professores para educação bi/multilíngue.

De modo amplo, reivindicamos uma diretriz que contemple os diversos contextos brasileiros: escolas de fronteira, educação de migrantes e migrantes de crise, Educação Profissional e Tecnológica, além do único contexto apresentado, no documento, que é o da Educação Bilíngue de Línguas de Prestígio, uma vez que a proposta declara que não discutirá e Educação Bilíngue para Surdos e a Educação Bilíngue Indígena. Somando-se a isso, destacamos também a importância de entendermos a Educação Bi/multilíngue para além de seu escopo linguístico e que essa modalidade educativa deve ser pensada e planejada sempre a partir das duas ou mais línguas de escolarização. 

O documento produzido pelo grupo está disponível na íntegra no link: https://docs.google.com/document/d/1EQaYJ7Xv-6t9VI4kM_JVsRUDIMkMISR9Xi7EpNB0TeY/edit?usp=sharing

Mais uma vez, como na época de Vygotsky e como Liberali nos lembra constantemente, é preciso muita força e coragem para seguir lutando, em colaboração, por um mundo melhor. 

 

Referência

MAGALHÃES, M. C; LIBERALI, F. Entrelaces Vygotskianos. In: FÓRUM ISCAR-BRASIL, 4., Caderno de Resumos […]. Londrina, 2017. p. 102-165.25

Antonieta Megale

Formada em comunicação social e pedagogia. Mestre em linguística aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutora em linguística aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizou estágio doutoral na Universidade de Viadrina (Alemanha). Coordena o curso de pós-graduação em Educação Bilíngue e a extensão do Instituto Singularidades, onde atua também como professora no curso de pedagogia. É docente do curso de Extensão Bilinguismo: Revisão de Teorias e Análise de Dados da COGEAE – PUC/SP. É membro do grupo de estudos de Educação Bi/multilíngue (GEEB) da PUC/SP. Atua também como docente em diversos cursos de pós-graduação e extensão por todo o Brasil e como assessora na área de linguagens em instituições de educação básica.

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