“É melhor fazer aula com um falante nativo?”

“É melhor fazer aula com um falante nativo?” — pergunta o leigo. E hoje é com ele que vou falar.

Você com certeza já deve ter visto cursos de inglês que anunciam aulas com professores nativos. Será esse de fato um diferencial?

Vamos pensar aqui: se fosse o contrário e você fosse dar aula de português para estrangeiros… Você mesmo, brasileiro, você é falante nativo do português, não é?

Então me diga:

  1. é verdade que o carioca pronuncia o ‘s’ do plural como ‘x’?
  2. o que quer dizer ‘denda’?
  3. resposta rápida: qual a diferença entre ‘palestra’, ‘discurso’, ‘fala’ e ‘pronunciamento’?
  4. por que eu digo “chuva forte” e “nuvem pesada”, mas não “chuva pesada” e “nuvem forte”?
  5. de que formas você ensinaria os alunos a responder a um “muito obrigado”?
  6. você seria capaz de criar situações para que seu aluno entendesse e pusesse em prática a diferença de uso entre “fez” e “fazia”, ou seja, entre o pretérito perfeito e imperfeito?
  7. que elementos eu preciso conhecer para escrever um texto argumentativo em português?

Provavelmente será difícil para você responder a tudo isso. Você só cresceu falando essa língua. Talvez você até seja muito bom no uso do português e saiba variar entre a informalidade de uma conversa de bar e a formalidade de um relatório escrito para um cliente externo. Mas você não é um professor de fato para saber explicar os comos e os porquês da língua, para criar oportunidades de aprendizado, ou para usar todo um cabedal de conhecimento e habilidades próprios de um professor. Você é “só” nativo.

Pode ser o mesmo caso de americanos, britânicos, australianos e neozelandeses que são anunciados como “professores nativos”.* Claro, há nativos com formação de  professor e que realmente têm compromisso com o ensino-aprendizagem. Mas a diferença está aí: nessa qualificação e experiência que eles têm com o ensino de inglês e não no lugar onde cresceram. Passaporte não é currículo.

Assim, quando tentarem lhe vender gato por lebre, pergunte: esse “nativo” aí é professor mesmo ou é só nativo?

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Respostas/Comentários:

  1. Sim e não. Há 4 formas de pronunciar o ‘s’ em fim de sílaba e palavra no português carioca (também no paraense e em outras localidades) a depender do som que venha depois. Se o som que vier na palavra seguinte for um /s/, como em “os sapos”, o ‘s’ de “os” vai ser pronunciado como /s/. Se o som for de vogal ou de /z/, como em “os avestruzes” ou “os zangões”, o ‘s’ de “os” vai ser pronunciado como /z/. Se o som seguinte for uma consoante sonora que não o ‘z’, como em “os gatos”, o ‘s’ de “os” vai ser pronunciado como o ‘j’ de janela. Para os demais casos, ou seja, consoantes surdas ou silêncio, como “os cachorros”, o ‘s’ de “os” e de “cachorros” vai ser pronunciado como ‘ch’.
  2. Contração da preposição “dentro” com a preposição ‘de’ e o artigo ‘a’ em português falado: “denda gaveta”. Você pode achar que isso não é digno de ser ensinado, mas seus alunos podem não entender quando ouvirem por causa disso.
  3. Rá! Vai ter de olhar no dicionário essa aí. E vai ter de decidir quantos dos diversos usos da palavra ‘fala’ você vai incluir nessa explicação sem deixar o aluno tonto.
  4. As palavras se combinam de formas diferentes em línguas diferentes. Em inglês é “chuva pesada”, mas em português essa combinação de palavras não soa natural pois se usa o “forte”.
  5. Não sei o que você ensinaria, mas seu aluno vai ouvir “de nada”, “por nada”, “‘Magina”, “Que isso”, “Não tem de quê”, “Obrigada a você!”, etc.
  6. Veja, não é necessário só saber quando se usa “Ele fez o almoço (ontem/todos os dias até falecer)” e “Ele fazia o almoço (quando morava com a mãe)”, mas criar situações que ajudem o aluno a entender a distinção e praticar.
  7. Siiiiiim, fala-se muito em nativo para ensinar a “falar”, em especial a famigerada “conversação” (e quem disse que todo mundo sabe ensinar a conversar?), mas na nossa vida também precisamos escrever, persuadir, falar em contextos formais, etc.

*Curiosamente, sul-africanos, nigerianos, indianos e nativos de outros países menos brancos não costumam ser considerados tão “nativos” assim… A busca por essa fugidia natividade é, antes de tudo, racista.

Natália Guerreiro

Natália Guerreiro has been a teacher since the year 2000 and currently works in Aviation English assessment and teaching for the Brazilian Air Force. She holds a CELTA, a B.A. in English & Portuguese from UFRJ, and an M.A. in Applied Linguistics from the University of Melbourne. She's been elected BRAZ-TESOL's Second Vice President for the 2019-2020 term.

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