Falar o quê? Para quê? Para quem?

Segundo o portal de notícias do Senado Federal, um projeto apresentado em 2012 pelo Senador Cícero Lucena (PSDB-PB) está pronto para ser votado na Comissão de Educação do Senado (CE). O projeto (PLS 71/2012) tem como objetivo “incluir a fluência na oralidade como um dos objetivos do ensino de língua estrangeira no ensino fundamental e médio”, alterando o parágrafo 5 do artigo 26 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, a chamada Lei de Diretrizes e Bases da Educação. O projeto parece não levar em conta documentos como os PCN e as OCEM, de publicação posterior à Lei 9394, e que já falam sobre o papel de cada habilidade comunicativa.

Estabelecer objetivos claros de aprendizagem deveria ser premissa básica para o desenvolvimento curricular. Isso não quer dizer que os currículos tenham que ser rígidos, que não possam acomodar diferenças regionais, por exemplo. Tampouco sugere a supremacia do “produto final”, testado e mensurado de várias formas, sobre a riqueza do “processo” de ensino-aprendizagem.

Nossa Lei de Diretrizes e Bases estabelece – como fica claro pelo título – diretrizes, caminhos, bases conceituais para o processo de ensino-aprendizagem. Não temos um currículo básico, que estabeleça pontos de chegada ou competências mínimas esperadas para o final de cada ciclo escolar. Nosso Exame Nacional do Ensino Médio apresenta amostras de um conteúdo programático que se convencionou ser o que se espera que os alunos tenham coberto durante os 12 anos de escolaridade.

Uma ênfase exagerada em resultados pode ser empobrecedora, e ao deixar para trás todos os que não alcançam tais resultados é excludente. Por outro lado, enfatizar as premissas e as referências teórico-conceituais do processo de ensino e aprendizagem sem estabelecer com clareza aonde se quer chegar, igualmente deixa de prestar o melhor serviço a alunos e professores.

Com relação ao ensino de língua estrangeira, determinar que a fluência na oralidade seja parte dos objetivos é apenas mais uma vaga indicação. Se pensarmos no jovem que termina o Ensino Médio, quais são os objetivos de comunicação oral em língua estrangeira para os quais devemos capacitá-lo? São situações rotineiras na indústria de serviços? Interação no trabalho entre equipes multilíngues e frequentemente à distância? Atividades especializadas no manuseio de máquinas e equipamentos? Atividades de alta precisão na transmissão de informações e diretrizes?

Cada uma das situações citadas exige níveis diferentes de proficiência no idioma, de capacidade de lidar com o inesperado, de usar os conhecimentos linguísticos para resolver problemas, de reagir ao interlocutor. Os caminhos para atingir estes níveis de proficiência são muitos, mas ter clareza sobre o ponto de chegada é condição essencial. Sem saber para onde se vai, qualquer caminho serve mas não garante que se chega ao destino.

Sandra Possas

Sandra Possas (MA TEFL, University of London; RSA DipTEFLA, MBA Business Management, Ibmec RJ), Diretora Editorial da Richmond no Brasil, é linguista com experiência em ensino de inglês como língua estrangeira, formação de professores e desenvolvimento de materiais de ensino.

10 Comments
  • Higor Cavalcante
    Posted at 16:08h, 05 fevereiro Responder

    Olá Sandra,

    Obrigado pelo excelente post.

    Discutia este projeto outro dia com um amigo (professor, claro!), e disse a ele que acho que para que um enfoque na oralidade (e concordo plenamente com os seus pontos) fosse possível e desse resultados, mudanças profundas teriam que ser implementadas na formação do professor de língua estrangeira, você não acha? Não é pequeno, na minha opinião, o número de professores no ensino ‘regular’ que não têm fluência no idioma e que, consequentemente, teriam muita dificuldade em promovê-la em seus alunos.

    O que você acha?

    Um abraço,
    Higor.

    • Cynthia
      Posted at 15:31h, 06 fevereiro Responder

      Olá, Higor
      Muito pertinente seu questionamento de mudança na formação do professor, já que o buscamos através da educação é a formação completa do indivíduo. Sendo o educador a base para alcançar tal objetivo, nada melhor do que capacitá-lo para isso.
      Você tem razão quando diz que uma pequena parte dos professores tem fluência no idioma. Eu diria até que poucos têm um conhecimento amplo da língua inglesa. Precisamos mudar isso com urgência!
      Abraços
      Cynthia

    • Sandra Possas
      Sandra Possas
      Posted at 13:41h, 10 fevereiro Responder

      Olá Higor, a questão da fluência e/ou nível de proficiência do professor é mesmo muito importante. Qualquer generalização é perigosa, mas é verdade que as oportunidades de formação continuada são muito pequenas, e poucos professores têm acesso. Mas em tempos de internet a oferta de material (em qualquer idioma!) é imensa, o que aumenta as opções para auto desenvolvimento.

  • Luciene
    Posted at 21:36h, 05 fevereiro Responder

    Olá Sandra,
    Muito obrigada pelo post. Isso nos traz uma nova reflexão sobre o ensino de língua estrangeira na rede pública. Mas, na sua opinião, como posso trabalhar oralidade com 10 turmas ( 20 h de trabalho) e salas de 40 a 45 cinco alunos por turma? As vezes que eu tento é um fracasso. Só consigo na primeira turma, na segunada em diante não suporto mais falar. Minha voz já falhou varias vezes na sala. Eu não sei como esse objetivo “incluir a fluência na oralidade” será possivel. Concordo com o colega que menciona sobre o número de professores que não tem fluência no idioma. Precisamos de mais cursos, mais incentivo, uma carhga horária menor e mais ajuda! Eu preciso avançar como professor, desejo salas de aula melhores , alunos mais motivados, salário mais digno para que eu possa atuar com excelente qualidade e obter excelentes resultados!
    Abraços carinhoso, Luciene

    • Sandra Possas
      Sandra Possas
      Posted at 13:33h, 10 fevereiro Responder

      Olá Luciene, acho que você toca em pontos cruciais para o sucesso no ensino/aprendizagem de idiomas – as condições de trabalho, carga horária, tamanho das turmas… Por isso considero tão importante discutir os objetivos do processo de ensino, ou seja, onde queremos chegar. Se todos os pontos que você menciona deixassem de existir, nós estaríamos prontos a dar um curso diferente a partir de amanhã? Acho que a discussão é mais ampla, primerio sobre o “what” e depois sobre o “how”.

  • Cristiane
    Posted at 10:14h, 06 fevereiro Responder

    Acredito que a fluência na oralidade é um DIREITO do aluno, porém é preciso que o professor seja fluente em primeiro lugar e que tenha condições humanas para realizar este trabalho. Salas de aulas lotadas, desmotivadas e heterogêneas é a realidade que enfrentamos de norte a sul nas escolas do nosso país. Impossível conseguir bons resultados.

    • Sandra Possas
      Sandra Possas
      Posted at 13:44h, 10 fevereiro Responder

      É um desafio mesmo, Cristiane, e penso que muitos professores o considerem uma batalha perdida. Minha pergunta é se o objetivo de fluência oral (1) está claramente definido, e (2) se é mesmo um objetivo legítimo, considerando a faixa etária dos alunos – no EF, por exemplo – a carga horária, as condições de trabalho, o sistema de avaliação, e tantos outros aspectos.

  • Anderson Maia
    Posted at 11:10h, 06 fevereiro Responder

    Olá Sandra!

    Obrigado pelo artigo, muito interessante! Esta proposta de projeto parece ser mais um esforço para que o ensino de língua estrangeira no Brasil evolua. Obviamente que esta evolução terá diversas consequências nesta área profissional. A maior exigência em sala de aula será refletida nas graduações de formação de professor de inglês, a carga horária da disciplina poderá ser reajustada, a integração do inglês com outras disciplinas poderá aumentar e a oferta da língua estrangeira poderá iniciar mais cedo que hoje – fundamental II. Tenho esperança nesta evolução.

    Thank you!

    • Sandra Possas
      Sandra Possas
      Posted at 13:36h, 10 fevereiro Responder

      Eu também tenho, Anderson! E penso que devemos manter o debate sempre aberto – às vezes é cansativo, mas quanto mais a gente discutir, mais chances de melhorar.

  • BRUNO CORIOLANO
    Posted at 18:12h, 18 maio Responder

    Não posso afirmar que fiquei 100% satisfeito com o artigo, pois, ao meu ver, foi mais um apanhando de referências do que um artigo que proponha algo.
    Em relação ao “projeto”, só posso dizer que é mais uma tentativa de tumultuar o já tumultuado ensino de Línguas Estrangeiras no nosso país. Afinal, nossos políticos sempre “propõe” soluções milagrosas para problemas mais complexos. Para que possamos melhorar o ensino e incluir uma outra habilidade, a oral nesse caso, precisamos de mudanças muito profundas no ensino, de forma geral. (Assim eu estaria apenas dizendo o que todos já sabem, de fato.).
    Vi uma entrevista com Almeida Filho, professor na UnB, se não me engano, e concordo com os pontos levantados pelo mesmo: O MEC deveria primeiramente criar um órgão regulamentador para o ENSINO DE IDIOMAS NO BRASIL. Do jeito que está, qualquer franquia dita seu critério de níveis, fazendo assim com que os aprendizes passem anos e anos pagando por um ensino que é, na maioria das vezes, ineficiente. Além, lógico, de serem enganados com cursos que prometem resultados incríveis em doze meses.
    Em relação ao ensino regular, os alunos deveriam não só receber duas aulas, mas pelo menos seis horas semanais e os mesmos deveriam ser divididos em grupos por níveis, independentemente do nível que esteja nas outras disciplinas no Ensino Médio, por exemplo.
    A formação dos professores também passa por uma valorização (monetária) dos profissionais. Não adianta sonhar, de forma utópica, que o professor vai investir mais tempo e dinheiro em sua própria formação, se o mesmo não sentir que terá algum retorno. Vejam a forma como os cursos de pós-graduação (lato sensu stricto sensu) se transformaram em negócio no Brasil. A preocupação hoje é em ter alunos fazendo números, principalmente nas instituições privadas, mas as pesquisas e os estudos nesses níveis têm pouco ou quase contribuído em nada para o “enriquecimento” no ensino. São pesquisas que apontam coisas, digamos, muito subjetivas e pobres do ponto de visto cientifico. Não se leva muita coisa das pesquisas de volta para a sala de aula. Resultado: ensino atravancado com documentos velhos, que precisam de revisão. O mundo muda de forma rápida, mas o ensino ainda continua em outra época.

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