O que os professores sabem sobre Ensino Híbrido?

As metodologias ativas estão presentes em quase todos os debates contemporâneos de educação no Brasil. Nos últimos três anos, o termo tem ganhado força e aparecido em publicações, cursos e debates sobre educação.

Tenho atuado na formação docente de professores com foco em metodologias ativas desde 2013, em especial, com o Ensino Híbrido. Desde então, foram centenas de formações em instituições de ensino públicas e privadas.

No ano de 2018, tive a oportunidade de participar de uma série de encontros oferecidos pela Richmond em sete cidades do país: São Paulo, Brasília, Curitiba, Campinas, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte. Chegamos a alcançar um público de aproximadamente 240 professores. O tema que trabalhei foi o Ensino Híbrido, em formato de oficina. Eu iniciava o encontro fazendo a seguinte pergunta aos professores: o quanto você conhece sobre esse tema. O resultado foi supreendente. Aproximadamente 45% dos presentes afirmavam não saber praticamente nada, enquanto 31% afirmavam ter lido algo a respeito. Ou seja, 75% dos presentes possuem nenhum ou muito pouco conhecimento do tema.

Outro dado interessante é a visão que os professores tem do que seria Ensino Híbrido. Enquanto definição, Ensino Híbrido é

[…] um programa de educação formal no qual um aluno aprende, pelo menos em parte, por meio do ensino online, com algum elemento de controle do estudante sobre o tempo, lugar, modo e/ou ritmo do estudo, e pelo menos em parte em uma localidade física supervisionada, fora de sua residência (…) As modalidades ao longo do caminho de aprendizado de cada estudante em um curso ou matéria são conectadas para oferecer uma experiência de educação integrada (CHRISTENSEN, 2013, p.7)

Não é incomum os professores confundirem Ensino Híbrido com o ensino enriquecido com tecnologias, que envolve a integração em sala de aula de algum recurso digital, seja para enriquecimento da instrução do professor, seja para promover algum tipo de interação dos estudantes com esse conteúdo, colaboração em grupo ou avaliação online.

O Ensino Híbrido envolve tecnologia, mas ele tem um enfoque bem específico para o uso dessas tecnologias em sala de aula. A Clayton Christensen Institute, Fundação que atua com inovação disruptiva e disseminou o termo ao redor do mundo, deixa claro em sua definição que a função da integração das tecnologias em sala de aula é dar autonomia para o estudante, ou seja, algum tipo de controle sobre o tempo, lugar, modo e/ou ritmo do processo de ensino-aprendizagem. Em outras palavras, a personalização do ensino é um dos objetivos do Ensino Híbrido, lado a lado com o desenvolvimento de competências essenciais no século XXI.

Fonte: https://www.coursera.org/learn/ensino-hibrido

Vamos a um exemplo. Um dos modelos de Ensino Híbrido é a sala de aula invertida, que consiste em oferecer ao estudante algum aspecto da instrução antes de aula, de forma que ele, de maneira autônoma, tenha acesso prévio ao conhecimento-base da aula. O professor, por sua vez, acompanha esse estudo por meio de algum recurso digital, como um formulário online. Esses dados serão utilizados pelo professor para o planejamento da aula presencial. Note que a sala de aula invertida favorece a autonomia do estudante, que pode estudar do lugar que deseja e levando o tempo que precisar.

Outros modelos de Ensino Híbrido, como a rotação por estações, terão como enfoque promover o acesso a diferentes modos de aprender, oferecendo ao estudante, em cada estação, diferentes suportes, registros e interações. Também é possível flexibilizar o espaço, de forma que os grupos decidam onde gostariam de cumprir seu desafio.

A rotação individual, modelo mais disruptivo porque demanda do professor um planejamento cuidadoso e rompe com o modelo de sala de aula convencional, permite ao estudante ter controle sobre o ritmo, já que os desafios que ele precisa cumprir são compartilhados previamente (e esse desafio não é padronizado, é personalizado) e ele organiza seu tempo como considerar importante. O professor vai acompanhando e orientando os estudantes, como um mentor.

Quer saber mais sobre o Ensino Híbrido, como utilizar em suas aulas e conhecer algumas experiências? Continuem acompanhando minha coluna aqui no blog 😉

Bons estudos!

Referências:

  1. Coursera –  Curso de Ensino Híbrido (2015). Disponível em : https://www.coursera.org/learn/ensino-hibrido
  2. CIEB: Diretrizes de Formação em metodologias ativas elaborado por Julci Rocha e Lilian Bacich
  3. Texto de Julci Rocha sobre Ensino Híbrido – Blog da Redesenho Educacional
  4. Livros de referência para o tema, organizados por pesquisadores da área e escrito por professores e pesquisadores envolvidos com as metodologias ativas

Julci Rocha é Mestre em Educação: Currículo (PUC/SP) pós-graduada em gestão educacional, design educacional e educação inovadora. Licenciada em Letras pela USP. Atua na formação inicial e continuada na educação desde 2008. Tem experiência em consultoria e gestão de programas inovadores em redes públicas e privadas, envolvendo inovação curricular, metodologias ativas, aprendizagem criativa e integração das tecnologias digitais nas práticas pedagógicas. Atuou em instituições importantes como Instituto Paulo Freire, Fundação Lemann e Microsoft. Hoje é Fundadora e Diretora da Redesenho Educacional, assessoria especializada em educação inovadora que atua com diferentes atores: escolas, universidades, organizações do terceiro setor e empresas do ecossistema de educação. É professora de Pós-Graduação do Instituto Singularidades e do SENAC.

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