O que nunca lhe contaram sobre terminar um curso de idiomas em tempo recorde

O aumento da renda familiar ocorrida nos últimos anos aliado à crescente demanda do mercado de trabalho por profissionais com fluência em inglês têm ocasionado um grande aumento na demanda por cursos de idiomas no Brasil. Afinal de contas, para ter um bom currículo e tornar-se um profissional valorizado é essencial aprender uma segunda língua o quanto antes. Não concordam?

O MERCADO ESTÁ (SEMPRE) DE OLHO

A partir da intensificação do senso comum de que não se aprende uma língua estrangeira nas escolas regulares brasileiras, especialmente ao longo das três últimas décadas, um número sem fim de novas escolas de idiomas tem surgido, ano após ano, unindo-se àquelas que tradicionalmente já possuíam a sua fatia do bolo, de olho justamente nessas novas mudanças comportamentais dos indivíduos e nas tendências do mercado de línguas estrangeiras, que movimenta atualmente algo em torno de 3,5 bilhões de reais e que ainda se encontra em expansão, mesmo em face da atual crise financeira. Elas trouxeram consigo uma verdadeira explosão de métodos e materiais didáticos os mais diversos, em grande parte visando proporcionar ao cliente aquilo que ele tanto deseja: terminar o seu curso de idioma em tempo recorde!

Somando-se a esse cenário de rápidas mudanças o surgimento e a ampla aceitação da ideologia da sociedade da informação e do conhecimento, que transforma o conhecimento adquirido pelas pessoas em bem de alto valor e, portanto, passível de ser comercializado no mercado, o aprendizado de um novo idioma tem cada vez mais ganhado contornos meramente utilitaristas. Dito de uma outra forma, estuda-se um novo idioma simplesmente para tornar-se um profissional mais bem valorizado, para sair na frente (ou correr atrás) e obter mais chances de vencer a concorrência na corrida pelos bons postos de trabalho, por uma promoção, por uma bolsa de estudos e assim por diante. Terminar um curso de inglês significa, sob essa ótica, subir mais um degrau, colocar mais um certificado no currículo – e #partiupróximocurso.

“QUANDO EU TERMINAR O INGLÊS…”

O raciocínio feito até aqui busca contextualizar e compreender o que está por trás do preocupante discurso com o qual muito tenho me deparado nos últimos tempos (seja através de amigos e familiares próximos, seja através de alguns alunos em meu ambiente de trabalho) e que me tem causado grande inquietação: o de “terminar (logo) o inglês”.

Esse discurso, cada vez mais comum nas conversas do dia-a-dia, é frequentemente expresso através de falas do tipo:

  • “Qual curso você recomenda para que eu termine o inglês mais rapidamente?”
  • “Quero fazer logo o IELTS/FCE/TOEFL/etc. para poder finalmente terminar o inglês!”
  • “Quando terminar o inglês, vou começar informática/excel/webdesign/espanhol.”

Contudo, antes de ser acusado de querer manter as pessoas em uma sala de aula de uma escola de idiomas pelo resto de suas vidas (cuja possibilidade, a meu ver, não seria de todo mal, caso não custasse tempo e dinheiro), vou logo esclarecendo que nenhum mal há no mérito de se conquistar um certificado de conclusão de um curso de idiomas, e que a minha inquietação deve-se essencialmente ao que está por trás deste discurso, ou seja, ao móvel do discurso, quando este revela, muitas vezes sem que se dê conta, um fim meramente utilitarista de acúmulo de qualificações para fins de currículo, conforme procurei deixar claro até aqui.

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Independentemente das razões pelas quais as pessoas buscam aprender um novo idioma, a fluência na segunda língua se faz uma necessidade perene, isto é, que nunca termina, a fim de que se alcance grande parte dos possíveis objetivos. Isso requer a prática constante, sistemática e – para a tristeza dos que pensam em tornarem-se fluentes em uma quantidade X de horas predeterminadas – por um período de tempo o qual eu não ousaria predizer, pois que, para que seja permanente, a fluência deverá confundir-se com o próprio ser. Para tanto, deve-se levar em consideração uma série de fatores inerentes a cada indivíduo e que incluem (mas não se restringem a) o tempo de exposição ao novo idioma, o tempo que cada indivíduo necessita para atingir a compreensão de determinadas características do mesmo (assim como cada criança leva um tempo diferente para compreender e falar a sua língua materna) e, talvez mais importantemente, o tempo de prática até que a fluência no novo idioma seja incorporada ao indivíduo como uma espécie de segunda natureza, o que pode levar bastante tempo.

APRENDER UM OUTRO IDIOMA É APRENDER UMA ARTE

Não conheço ninguém que tenha feito um curso de violão, de pintura ou de fotografia simplesmente para por no currículo. Geralmente, aprende-se por interesse pessoal, aprende-se para a vida. Ninguém que toque, pinte ou fotografe, seja por hobby ou profissão, estaria contando as horas faltantes para terminar o seu curso e depois aposentar instrumento, pinceis ou câmera fotográfica para todo o sempre. Aqueles que estudaram e continuaram com a prática constante de tais habilidades o fazem até hoje, pois incorporaram aqueles conhecimentos, isto é, trouxeram-nos para dentro de si, do seu corpo, integrando-os ao seu próprio ser. Não se veem desprovidos dessa característica, assim como a maioria dos leitores deste artigo não se vê sem as habilidades de falar, ler e escrever na sua língua materna. Já aqueles que pararam durante ou logo após os seus cursos, no entanto, normalmente lembram-se (quando muito) dos conceitos básicos, de alguns conteúdos e exercícios, mas perderam a “fluência” que tanto trabalharam para alcançar.

Ao empreender o aprendizado de outro idioma, é importante que você se dê conta de que está, de fato, aprendendo uma arte. Você pode até escolher terminar o seu curso em menos tempo, melhorando o seu currículo. Entretanto, ao engavetar o conhecimento adquirido junto com o seu certificado, estará talvez se encaminhando para estabelecer um novo recorde: o de quanto tempo até ser obrigado a retornar para a sala de aula, atrás da fluência perdida?

Marcelo de Cristo

Marcelo de Cristo is an EFL Teacher, ELT Consultant and a life-long learner. He is a Cambridge CELTA Trainer and Oral Examiner (Main Suite and YLs), and has trained teachers in the private and public school sectors in Brazil and other countries around South America and in the UK. He is based in Natal, blogs at www.hashtagelt.com and also runs the Edmodo Brasil community on facebook.

3 Comments
  • ÉDER FLÁVIO BENITES RAMOS
    Posted at 15:34h, 22 julho Responder

    Concordo plenamente com tudo o que aqui foi dito. Eu sou professor de inglês há quase 10 anos(e ainda não considero isso um bom tempo de inglês,e muito menos me considero bom na língua; tenho muito ainda que aprender) e tenho também notado a proliferação de escolas oferecendo um método “mágico” da língua de Shakespeare. Eu amo a língua inglesa…amo não,sou fanático por inglês e,ainda assim,vejo o quanto tenho que desenvolver a fluência,bem como a aquisição de um vocabulário mais rico através de árduo trabalho estudando de múltiplas maneiras…Como,então,os empresários de escolas de inglês têm coragem de fazer propaganda enganosa ao público? Mais honestos seriam se fossem claros,dizendo que o que aprenderão em determinado tempo de curso,será um nível pré-intermediário,devendo o aluno continuar seus estudos caso tenha interesse em se aprofundar. Eis aqui a minha opinião!!!!

  • Teresa Carvalho
    Teresa Carvalho
    Posted at 22:17h, 23 julho Responder

    Olá Marcelo,

    Excelente analogia entre aprender inglês e aprender uma arte. Infelizmente muitas pessoas ainda associam um certificado à garantia de aprendizado, quando na verdade aprender uma língua requer paciência e a percepção de que é algo para a vida toda. Parabéns.

  • Glaucia Sousa
    Posted at 13:30h, 24 setembro Responder

    Olá Marcelo,
    Confesso que como estudante essa é uma questão que me tira o sono, percebo que mesmo quando chegamos ao último nível de um curso de línguas ainda não estamos fluentes. Alias, diga-se de passagem que ainda estamos bem longe disso.
    Neste momento, eu estou aprendendo Francês e Inglês, embora, eu já esteja no último nível de Francês não sinto-me fluente e ainda engasgo ao manter um dialógo. Estive neste ano fazendo um intercâmbio de 3 semanas na França na esperança de melhorar. O que eu percebi é que nosso nível de avançado aqui e para eles o nível de intermediário, ficando uma gap de aprendizagem. Eu escuto rádio (noticias), músicas, filmes tenho aula de conversação individual e mesmo assim, sinto que emperrei.
    O que você com sua experiência pode orientar. A verdade, que concordo quando você diz que o aprendizado é para a vida toda, mas, confesso que eu gostaria de aprender outras línguas também!
    Desde já, muito obrigada.

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