A vida não é um cursinho de inglês…

Esta semana, surfando na internet, me deparei com um meme bastante bem humorado que me chamou a atenção, arrancando aquele sorriso típico de quem admite para si mesmo: ‘genial!’

Eis aqui o dito cujo:

Meme - A vida é mais que um cursinho de inglês...

Não obstante o riso quase que inevitável, por de trás do bom humor (através de um símile que faz alusão ao estereótipo da fala de um caipira texano para dar a dimensão da dificuldade da vida), o meme também nos coloca diante de alguns questionamentos bem relevantes, especialmente para quem ensina línguas em um contexto de EFL/ELF, como é o nosso caso no Brasil. Afinal de contas, se houve a identificação por parte de tantas pessoas (1500+ curtidas e 800+ compartilhamentos), dentre as quais muitos professores, é porque existe aí um grande fundo de verdade.

Uma dessas questões, que gostaria de levantar aqui, vai além da dificuldade mais óbvia com a compreensão do sotaque e diz respeito ao que chamamos de “language grading”, ou seja, a linguagem utilizada pelo professor na sala de aula que se ajusta à compreensão dos alunos, que, por sua vez se subdivide em outras questões de igual relevância:

  • O quão naturalmente devemos falar com os nossos alunos?
  • Devemos falar rápido ou devagar em sala?
  • Devemos ajustar o nosso uso de gramática e vocabulário ao nível da turma?
  • Devemos utilizar linguagem formal ou coloquial?
  • Devemos nos limitar a utilizar em nossa fala apenas aquilo que o material didático traz?
  • Quantas digressões fazemos ao nos dirigir aos alunos? O quanto nos é recomendado?
  • Devemos repetir tudo o que os alunos falam de volta pra eles como se fôssemos papagaios?
  • Devemos utilizar marcadores de discurso (um, er, y’know, like, I mean, etc.) ao falar? Isso ajuda ou prejudica os alunos?
  • De que forma podemos contribuir em sala de aula para minimizar o abismo entre a linguagem de sala e a linguagem da vida real?

Na minha opinião, um exercício bem fácil (porém muito significativo) que nós professores podemos fazer é levarmos uma câmera ou um gravador de voz para dentro de nossa sala de aula. Podemos, desta forma, registrar o nosso desempenho e assisti-lo/ouvi-lo posteriormente, fazendo uma autoavaliação à luz das questões acima. É importante, contudo, nos colocarmos tanto no lugar do aluno, em seu estágio da caminhada, como no lugar daquele que conhece o ponto de chegada e os obstáculos com que os mesmos se depararão ao final do percurso. Lembre-se sempre que é papel do professor conduzir seus aprendizes na descoberta da melhor rota para si.

Certa vez, o professor e filósofo norte-americano Amos Alcott afirmou que o verdadeiro professor defende os seus alunos contra a sua própria influência. Eu não iria tão longe. Na verdade, o verdadeiro professor defende os seus alunos contra a sua própria MÁ influência. Via de regra, tente responder esta simples pergunta: você gostaria de ser seu aluno?

E para concluir, mais um pouco de bom humor – é que o meme original deu ensejo a comentários* simplesmente HI-LÁ-RI-OS, em sua maioria escritos por professores de inglês! Resolvi, então, compartilhar os melhores aqui no blog:

10 Melhores comentários

  1. A vida é um véio escocês sem dente e lingua presa falando contigo rapidão qdo vc ta nervosa (true story ja me aconteceu haha) – K.S.
  2. Na real, a vida é um escocês discutindo com um australiano em um bar irlandês – G.S.
  3. A vida é um homeless do interior da Irlanda puxando conversa com você no Dublin riverside! – J.A.
  4. É um cara do Texas gago e com a língua presa… – L.R.C.
  5. Texas é de boa, quero ver você falar no telefone com um cara de Porto Príncipe – L.B.
  6. A vida é o Eminen rimando pra vc  – G.A.
  7. A minha vida é um indiano que estudou com o Eminem – J.A.B.G.
  8. A vida é um rap do Eminem cantado pelo Alvim e os esquilos… – C.C.T.
  9. A vida é o Eminem cantando com uma bala de canela na boca – R.R.
  10. A vida na verdade é o Eminem – B.M.

Fica, desde já, o convite para que você também possa compartilhar conosco a sua opinião nos comentários. Afinal de contas, o que é a vida?

* (os comentários expressam a opinião de quem os escreveu e não a visão do autor deste post.)

Marcelo de Cristo

Marcelo de Cristo is an EFL Teacher, ELT Consultant and a life-long learner. He is a Cambridge CELTA Trainer and Oral Examiner (Main Suite and YLs), and has trained teachers in the private and public school sectors in Brazil and other countries around South America and in the UK. He is based in Natal, blogs at www.hashtagelt.com and also runs the Edmodo Brasil community on facebook.

3 Comments
  • Edmilson Chagas
    Edmilson Chagas
    Posted at 16:23h, 22 outubro Responder

    Muito bom, Marcelo! Sempre levo esses questionamentos aos professores que acompanho e para os quais apresento workshops. Acredito que alguns dos principais motivos para a dificuldade de compreensão dos áudios que usamos em sala (em sua maioria gravados por falantes nativos) e também a fala monotônica de muitos alunos seja o exagero, por parte do professor, na gradação de sua fala. Escrevi brevemente sobre isso em um dos meus posts anteriores.
    Achei a ideia de gravação de imagem ou áudio uma forma não-invasiva e que pode trazer resultados bastante favoráveis!

    Take care!

    • Marcelo de Cristo
      Marcelo de Cristo
      Posted at 09:47h, 23 outubro Responder

      Olá Edmilson! Concordo demais contigo – e olhe que estamos considerando apenas o universo dos “cursinhos de inglês”. Se abríssemos o leque para as escolas regulares então… Tenho a impressão de que falta a muitos professores (e administradores) de escolas de inglês uma visão de totalidade. É muito comum ainda a prática de se colocar os professores linguisticamente menos desenvolvidos (e por vezes até menos preparados) para dar aula dos níveis iniciais, como se os níveis iniciais fossem os menos importantes, quando na verdade, na minha opinião, é justamente o contrário. Essa falta de habilidade (ou preparo), é um dos fatores que contribui para o aparecimento dos exageros a que você se refere. Obrigado pelo comentário!

      • Fernanda
        Posted at 10:29h, 30 outubro Responder

        E pior, esse tipo de coisa influencia o aluno até os níveis mais avançados. Quando começa mal, parece que continua ruim até o final.

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