7 conceitos de fluência e o que você deveria saber a respeito dela

No artigo intitulado O que nunca lhe contaram sobre terminar um curso de idiomas em tempo recorde, procurei contextualizar e explicar criticamente o surgimento da necessidade de se falar um idioma “fluentemente” (o mais depressa possível) em decorrência principalmente da mudança de paradigma e das exigências do mercado na sociedade atual. Indo na direção contrária, afirmei que a fluência em um idioma, a fim de tornar-se uma habilidade permanente, deve ser incorporada ao próprio ser como uma espécie de segunda natureza, e que cada indivíduo leva um tempo mais ou menos longo para realizar esse processo, sendo impossível predeterminá-lo, como frequentemente vemos ser feito. No entanto, por questões de escopo e limite de espaço, optei por não me aprofundar com relação ao conceito de fluência, deixando tal tarefa para este e os próximos artigos.

7 CONCEITOS DE FLUÊNCIA

  1. Facilidade, clareza no falar ou no escrever. (Fonte: Dicionário Michaelis)
  2. Abundância; facilidade no dizer. (Fonte: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)
  3. Facilidade, clareza com que alguém se expressa. (Fonte: Dicionário Aulete Digital)
  4. Qualidade da pessoa que se expressa com clareza: fluência em inglês. (Fonte: Dicio – Dicionário Online de Português)
  5. Facilidade de expressão; espontaneidade. (Fonte: Infopédia – Dicionários Porto Editora)
  6. Facilidade de expressão: ter fluência oral. (Fonte: Léxico – Dicionário de Português Online)
  7. Facilidade, espontaneidade no falar, tendo fluência em diversos tipos de línguas de várias naturalidades. Ser fluente em Inglês (possuir, conhecimento sobre a língua inglesa). (Fonte: Dicionário Informal)

O QUE VOCÊ DEVERIA SABER A RESPEITO DELA

Nas definições listadas acima constatamos, logo de início, a repetição das palavras facilidade, clareza e espontaneidade qualificando a capacidade de expressão oral (falar, dizer), escrita (escrever) e orientando a formação do senso-comum sobre o que vem a ser fluência. Contudo, essas são definições ainda muito gerais e que carecem de maiores desenvolvimentos. Afinal de contas, o que significa dizer algo com facilidade? O que quer dizer se expressar com clareza? E quais são as características de alguém que fala com espontaneidade?

Você deveria saber, pois ignorar as respostas a essas questões nos transforma em presas fáceis do oportunismo no mercado de idiomas, que se aproveita do fato de ser a fluência em uma língua estrangeira (principalmente o inglês) quase que uma exigência das organizações, principalmente em níveis hierárquicos maiores. Já dizia o filósofo alemão Immanuel Kant: quem não sabe o que busca, não identifica o que acha. É, portanto, da nossa ignorância que alguns se aproveitam para promover suas escolas e métodos (presenciais ou online), prometendo em seus anúncios e campanhas publicitárias a obtenção de uma “fluência” que não sabemos necessariamente no que consiste.

Uma busca rápida na internet sobre “o que é falar um idioma fluentemente” revela diferenças ainda mais acentuadas com relação aos conceitos de fluência entre os usuários, que podem ter origem, por exemplo, em fatores socioculturais e/ou conceitos inadequados adquiridos ao longo da vida. Para complicar ainda mais, estudos acadêmicos apontam que mesmo entre professores de idiomas a dúvida ainda é bastante comum quanto à definição do termo.

Para ilustrar o que estou falando, citarei algumas opiniões expressas em uma discussão sobre o tema em um curso de formação que ministrei recentemente. Na ocasião, alguns professores advogaram que não estaria errado, por exemplo, dizer que é possível falar fluentemente mesmo em um nível básico ou intermediário. Para tanto, e partindo das definições acima, bastaria apenas que o professor ou a escola levasse o aluno a ser capaz de expressar com facilidade, clareza, e espontaneidade todo o conteúdo estudado naquele nível – e promessa cumprida. Indo ainda mais longe, outros afirmaram que, por esse prisma, poderíamos perfeitamente dizer, sem necessariamente estar faltando com a verdade, que podemos ser fluentes em uma única situação, como, por exemplo, pedir comida em um restaurante ou apresentar um trabalho acadêmico em um congresso. Seguindo essa lógica, então, seria ou não possível chegarmos ao cúmulo de afirmar que é possível falar a célebre frase “the book is on the table” (o livro está na mesa) com facilidade, clareza e espontaneidade? A meu ver, isso dependeria somente de como conceituamos estes termos e, conforme procurei deixar claro em meu artigo anterior, o mercado de idiomas não apenas sabe como tira muito bom proveito disso, usando e abusando do termo fluência ao seu bel prazer.

Daí a importância de termos clareza quanto ao que buscamos, pois somente assim teremos condições de perceber se estamos trilhando o caminho certo independentemente de escola, método ou meio escolhido. Aproveito então para propor um exercício de reflexão: até que ponto você concorda com as assertivas abaixo (A – J) sobre a aquisição de fluência? Utilize a escala de 1 – 5, conforme indicado.

  1. Discordo fortemente
  2. Discordo
  3. Nem concordo, nem discordo
  4. Concordo
  5. Concordo Fortemente

A.  Ser fluente é falar como um nativo.
B.  Ser fluente significa comunicar-se em tempo real.
C.  Ser fluente significa falar sem sotaque.
D.  Ser fluente significa falar sem erros gramaticais.
E.  Ser fluente significa falar sem pausas.
F.  Para ser fluente é preciso pensar em inglês.
G.  Para se atingir a fluência é preciso estudar com professores nativos.
H.  Para se atingir a fluência é preciso ir morar fora.
I.   Pessoas tímidas não atingem fluência.
J.  Não é possível tornar-se fluente quando se começa a estudar depois de “velho”.

Com base nas suas respostas, então, como você definiria fluência em um idioma?

Você deveria saber.

Marcelo de Cristo

Marcelo de Cristo is an EFL Teacher, ELT Consultant and a life-long learner. He is a Cambridge CELTA Trainer and Oral Examiner (Main Suite and YLs), and has trained teachers in the private and public school sectors in Brazil and other countries around South America and in the UK. He is based in Natal, blogs at www.hashtagelt.com and also runs the Edmodo Brasil community on facebook.

2 Comments
  • Natalia Guerreiro
    Natalia Guerreiro
    Posted at 13:39h, 22 agosto Responder

    Parabéns pela escolha do tópico. A definição de fluência deve estar entre as coisas mais polissêmicas da nossa área, tanto entre os leigos quanto entre os especialistas, como você levantou.

    Acredito que uma das grandes ambiguidades quando se fala de proficiência/fluência é se ela faz parte de um continuum (daí se falar em níveis de proficiência/fluência ou situações de proficiência/fluência, como os profs do seu curso de formação disseram sobre ser fluente no básico) ou se a tal “proficiência/fluência” é só o fim do caminho, o estágio máximo (e onde será que essa linha de chegada fica?). E junto com essa ambiguidade vêm esses mitos que circundam a ideia de ser proficiente/fluente, como bem explicitou o exercício com as 10 frases que você propõe.

    Eu ainda acrescentaria um outro grande problema com o termo “fluência”. Ele nem sempre é sinônimo de proficiência, mas pode ser um dos aspectos que a compõem. Por exemplo, na tradicional divisão entre fluência e precisão/accuracy, fluência seria apenas metade da proficiência linguística. Ou mais pungentemente, em escalas de avaliação de proficiência, é comum ver critérios como pronúncia, estruturas sintáticas, vocabulário e “fluência”. Fluência aí não seria = proficiência, mas apenas um dos seus fatores, a parte que tem a ver com hesitações, pausas, false starts, chunking, automatização, velocidade de fala e marcadores discursivos.

    • Marcelo de Cristo
      Marcelo de Cristo
      Posted at 14:48h, 22 agosto Responder

      Excelentes colocações, Natalia! Então, tomando-as como ponto de partida, seria correto afirmar que coexistem duas grandes conceituações do termo “fluência”, sendo uma lato sensu (fluência=proficiência), sendo esta a mais utilizada pelos mercados de idiomas e de trabalho, e uma outra stricto sensu (fluência=componente da proficiência)?

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